Falando sobre sexualidade na adolescência

Como se a adolescência já não fosse bastante difícil, ainda é preciso saber lidar com questões relacionadas a sexo e sexualidade. Como fazê-lo com naturalidade? Veja algumas dicas a seguir.

A adolescência costuma ser o pior pesadelo dos pais. Como se já não bastassem todas as alterações de humor, rebeldia e mudanças de comportamento, ela é acompanhada por inseguranças sobre ter feito ou não “um bom trabalho”, ao prever e manejar a autonomia e independência própria desta etapa da vida. A psicóloga Maitê Hammoud convida a falar sobre o tema.

A sexualidade e suas questões não deixam de ser um dos componentes a pesar neste emaranhado de emoções. Assim como nas orientações sobre sexualidade infantil, é importante que você respeite o nível de dúvida e a etapa do desenvolvimento em que seu filho se encontra. Sempre que surgir algum questionamento, tente entender como ele se construiu, respeitando limites e fornecendo o que demanda a necessidade dele naquele momento.

Falando sobre sexo

A maioria dos pais pensam que falar sobre sexo na adolescência é falar sobre camisinha, Aids e gravidez precoce. Sexo seguro é, sim, essencial e deve ser abordado sempre que possível, porém ao focar apenas no discurso preventivo, não acolhem as experiências e emoções que estão no nível das relações. Sexo não se trata apenas de prevenção.

A adolescência é marcada principalmente por um divisor que separa a perda de inocência da criança com a identidade adulta que está nascendo. Para esse jovem adulto, o prazer, as fantasias e sua orientação sexual são grandes descobertas.

Falar sobre sexo é falar sobre beijos, masturbação, desejo, paixões, conquistas, ciúmes, medos, relação com o corpo e autoimagem, preliminares, carinho, entre outras questões.

Para abordar conteúdos tão íntimos e que têm uma enorme carga emocional para adolescentes, a confiança sempre será o maior alicerce, o que realmente pode favorecer a comunicação. Que um adolescente se sinta confortável para dividir tais temas com seus pais vai depender da confiança e naturalidade com que o assunto foi abordado ao longo de seu crescimento e desenvolvimento.

Por isso, demonstre-se sempre disponível e aberto para falar sobre sexo e sexualidade, procurando se informar e conhecer as mudanças geracionais, deixando preconceitos e medos pessoais resolvidos, para não serem um impeditivo neste momento.

Falando sobre sexualidade na adolescência

Cuidado com os pontos de conflito

Há temas que muito frequentemente servem para distanciar pais e filhos adolescentes, se não são tratados com sinceridade e abertura. São eles:

Masturbação

Por valores e preconceitos, que costumam ser transmitidos ao longo das gerações e pela sociedade, os pais costumam ver a masturbação e a pornografia como sinal de amadurecimento para os meninos, porém recriminam o ato no caso das meninas. É hora de quebrar este tabu!

Este é o momento em que o adolescente irá descobrir seu corpo de uma nova forma, e fantasias e desejos estão inclusos nesta etapa de descoberta e desenvolvimento, sendo sadio tanto para meninos, quanto para meninas.

Sexo é uma prática comum e saudável na vida adulta, e conhecer seu próprio corpo é fundamental para que seja uma prática prazerosa. Recriminar a masturbação impede que a garota explore e conheça seu corpo, algo que pode refletir negativamente na vida adulta, além de provocar sentimentos de culpa e tristeza.

Limites e respeito

Quando falamos de sexo, estamos falando sobre relacionamentos afetivos. Nesse sentido, o momento é propício para conversar sobre privacidade, limites e respeito com o parceiro(a), consentimento do casal na prática de demonstrações de carinho, preliminares e relações sexuais.

Autoestima

Ué, o artigo não era sobre sexo? Autoestima é um dos temas essenciais a serem abordados com os adolescentes quando o tema é sexualidade. A transição da infância para adolescência envolve uma série de questionamentos, insatisfações, ideais e mudanças no corpo, interna e externamente. Todas estas questões estão vinculadas diretamente com a autoestima do adolescente.

Adolescentes com baixa autoestima são inseguros, possuindo mais dificuldade em impor limites quando não se sentem seguros para fazer algo, tornando-se mais vulneráveis a experiências sexuais desconfortáveis ou traumáticas. Também são mais suscetíveis a reproduzir atos ou comportamentos que não estão de acordo com seus desejos e valores, apenas para obter aprovação de seu grupo de amigos ou temendo ser julgado por eles.

Falando sobre sexualidade na adolescência

Orientação sexual

A orientação homo ou bissexual costuma ser descoberta nesta idade e, ao não ter abertura para conversar com os pais sobre o tema e sua identidade, gera-se uma infinidade de sentimentos de culpa e inadequação, contribuindo para quadros de depressão, isolamento social e ideações suicidas.

Portanto, esteja aberto para lidar com as inúmeras possibilidades que envolvem o processo de descoberta do sexo na adolescência. Se você sente que o tema provoca emoções negativas em você, procure ajuda profissional, para que o vínculo com seu filho não seja prejudicado.

Não se esqueça

  • A base do diálogo é a confiança, e ela é construída ao longo do desenvolvimento.
  • Procure resolver suas questões pessoais para ser capaz de lidar com as questões de seu filho com tranquilidade.
  • Não force situações. A descoberta da sexualidade e o início da vida sexual devem ser tratados com respeito. Não faça insinuações sobre início precoce ou tardio da vida sexual, não interfira na escolha do adolescente. Respeite a individualidade e desejo de cada um.
  • Seja coerente com o que você fala e como se comporta. Se você fala para o seu filho que ele pode se sentir confortável para abordar qualquer assunto com você, mas quando toca um tema delicado ou inesperado, você reage com um ataque nervoso, com brigas ou castigos, qual a chance de ele tentar se abrir com você novamente?
  • Ao sentir-se desconfortável com alguma questão, não tema pedir um tempo a seu filho para refletir, respeitando seus próprios limites. De maneira segura e tranquila você pode falar: não estou preparada(o) para falar sobre esta questão agora, tudo bem se eu pensar um pouco e conversarmos amanhã?
  • Se por algum motivo seu filho se isola e demonstra dificuldades em falar sobre suas emoções e questionamentos, não deixe de proporcionar ao seu filho apoio psicológico. O processo poderá ser um grande alicerce nessa etapa da vida, não apenas promovendo o diálogo sadio sobre a sexualidade, como também auxiliando na habilidade de expressão, construção da autoestima e de vínculos, desconstrução de medos, entre outros.

Se um dos seus maiores temores é ter um filho gay, não deixe de ler: Quais são os desafios para quem tem um filho gay?

Fotos: por MundoPsicologos.com

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Maitê Hammoud
maitehammoud@hotmail.com