Relato de sobrevivente de suicídio

Suicídio: pensando racionalmente, é incabível que os óbitos por suicídio sejam superiores aos de doenças graves ou incuráveis como a AIDS. Mas, pensando emocionalmente, tem sentido!

Como um ato voluntário pode causar mais mortes do que algo em que o Governo investe tanto na prevenção e combate? Porém, pensando emocionalmente, as estatísticas para mim ganham sentido: a dor de estar vivo, sentindo-se por um fio, eu conheço muito bem.

De alguma forma, falar sobre suicídio me ajuda e, em meus sentimentos mais sinceros, a possibilidade de a minha história ajudar alguém me traz enorme satisfação.

Neste final de semana, com o término do Setembro Amarelo, um tema que foi bastante abordado nas redes sociais foi a divulgação da campanha #faceofdepression, que reúne fotos de pessoas que tentaram o suicídio ou que o realizaram. As fotos mostram momentos ou dias que antecedem o ato, chamando a atenção para o fato de o suicídio não ter um estereótipo definido. Comecei este relato antes de conhecer a campanha, mas exatamente com esse mesmo objetivo.

A discussão não se deve centrar em ser um ato de coragem ou covardia, mas sim em ser consequência de uma dor intensa e persistente. Percebo que muitas pessoas buscam a psicoterapia na tentativa de investigar a origem de suas dores. Entender sua origem obviamente pode ajudar, buscar novas perspectivas. Mas sejamos práticos, a razão nem sempre possibilita o término do sofrimento. Razões não mudam o fato de a dor está ali, não muda o passado, tampouco ajuda a dormir com mais tranquilidade.

A maioria das pessoas conhecem a origem de sua dor e não sente que ela se ameniza por isso.

A “suposta causa” dos meus problemas foi o falecimento de meu pai aos meus 7 anos recém completados. Sim, você deve estar pensando que isso não é motivo para que alguém tente se matar, e concordo com você, pois não foi. Assim começa a próxima etapa de minha vida e o nascimento da tal “dor” que anos mais tarde me levou à tentativa de suicídio.

Relato de sobrevivente de suicídio

Foi estressante, eu e meus irmãos tivemos que mudar de escola, fazer economias e lidar com olhares de pena de nossos colegas, professores e vizinhos, que expressavam dó ao olhar três crianças e uma viúva de apenas 38 anos. Mas, ainda assim, não é esta a razão da minha tentativa de suicídio.

A origem da minha dor, que veio crescendo ao longo dos anos, foi o fato de minha família ter parecido morrer com o falecimento do meu pai. Hoje, 23 anos depois, percebo a dificuldade das pessoas em lidar com o luto de um ente querido e carrego a dúvida de ser por falta de informação, acolhimento ou se simplesmente lidar com a morte não faz parte da natureza humana.

Na época, minha sensação foi de ter ficado órfã, convivendo com uma família fantasma que nunca demonstrou perceber o que acontecia dentro de mim. Aos 12 comecei a fumar, aos 14 a usar drogas, fugi de casa algumas vezes e, aos 16, no estopim de minha depressão, até então mal compreendida, descobri algo que aliviava minha dor e acalmava meus pensamentos mais do que qualquer analgésico: me cortar.

Os cortes eram feitos em lugares escondidos e não tinham como objetivo chamar a atenção. Uma das psicólogas que me atendeu voluntariamente em uma das muitas crises que tive me explicou: os cortes eram a maneira que eu tinha encontrado para externalizar as feridas que carregava dentro de mim.

Fazia sentido: naquela época minha dor já estava bem desenvolvida, era sentida por mim como intratável e inacessível, enquanto as feridas exteriores me proporcionavam a sensação de alívio e autonomia. Me cortar acalmava minha dor.

Dor invisível

O fato de ninguém perceber o que estava acontecendo comigo fazia com que eu me sentisse invisível. Eu duvidava da minha existência e, quando isso acontecia, o sangue me trazia de volta para realidade; eu ainda era de carne e osso.

Acidentalmente, por falta de cuidados meus, em duas ocasiões minha mãe viu os cortes em meu tornozelo. Quando questionada sobre “o que era aquilo” respondi que havia caído de bicicleta. Nas duas vezes. Por duas vezes eu respondi que caí de bicicleta, em períodos diferentes, e a resposta bastou. Chega a me dar arrepios lembrar do silêncio de minha mãe.

Se eu era deprimida? Sim. Se eu era aparentemente deprimida? Não.

Eu nunca fui “aparentemente deprimida”, pelo contrário. Sempre fui procurada por dar bons conselhos, ser engraçada, espontânea e destemida. Sempre fui considerada uma pessoa autêntica e era rodeada de amigos. Mas, internamente, a dor crescia cada vez mais, e com uma certa frequência pedia a Deus para que me levasse, que não me desse a chance de acordar no dia seguinte.

O diagnóstico de borderline veio um pouco depois e acredito que combinava comigo. A nomenclatura borderline deriva de limítrofe ou fronteiriço, e quem sofre desse transtorno vive no limite entre a neurose e a psicose. É assim que eu me sentia: entre a razão e a loucura. Alguém cheia de vida e de brilho, mas que carregava dentro de si tremenda escuridão que conduzia à busca pela morte.

Os anos foram se passando e em alguns momentos eu estava melhor, em outros pior, mas o nó na garganta e o abismo estavam sempre presentes. Aquele nó na garganta não me deixava respirar. Eu me sentia sufocada e, de alguma maneira, mesmo que a busca pela morte não estivesse presente de maneira tão clara e objetiva, era manifestada de outras formas.

Desenvolvi transtorno alimentar, comecei a beber com frequência, dirigia embriagada e em alta velocidade. No último ano da faculdade, muitas coisas estavam acontecendo em todos os campos da minha vida e meu corpo estava começando a entrar em colapso. Eu já estava há alguns anos sem me cortar e, um dia, sem mais nem menos, fui tomada por uma angustia tão intensa que eu sabia que seria necessário recorrer à ponte que me levava a realidade.

Estacionei o carro e comprei na papelaria que ficava ao lado do estacionamento um estilete. Desesperada entrei no banheiro de um shopping e me cortei com uma intensidade que até aquele momento eu desconhecia. E, então, resolvi pedir ajuda.

Relato de sobrevivente de suicídio

Apoio profissional

Iniciei tratamento psiquiátrico e psicológico. Algumas semanas já haviam se passado e, por não apresentar melhoras significativas, tomava um verdadeiro coquetel de remédios: antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e antipsicóticos, em torno de 10 comprimidos por dia.

Estava no trabalho quando briguei com meu namorado por mensagens de texto e, para tentar me acalmar, tomei algumas gotas a mais do ansiolítico. Era receitado que eu tomasse 5 gotas ao dia e, durante a discussão, tomei por volta de 60. Não foi a briga, nem o medicamento, eu simplesmente transbordei.

Comecei a chorar compulsivamente, tudo que não havia chorado nos últimos anos. Telefonei para a psiquiatra que indicou que eu fosse ao pronto socorro. Chegando ao hospital, na triagem em que avaliam a urgência do atendimento, a enfermeira me perguntou a razão de eu estar chorando e respondi que havia tomado 60 gotas de ansiolítico. Naquele momento ela me abraçou forte e disse para eu não fazer mais isso, foi então que eu chorei mais ainda.

A sensação daquele abraço carrego comigo até hoje, pois foi através dele que uma de minhas lacunas foi preenchida. Até aquele momento eu duvidava da minha existência e, pela primeira vez, me senti vista, tendo a certeza de que eu era real.

Duas semanas depois eu havia dormido na casa de meu namorado e acordei atrasada para o trabalho (os medicamentos da noite davam muito sono). Sempre fui extremamente pontual e aquele atraso de meia hora me perturbou de tal maneira que não conseguiria mensurar em palavras. Se você quer saber a razão literal de eu ter tentado suicídio, é esta: acordei atrasada para o trabalho.

Foi nesse dia que entendi o que era um surto. Era como se uma barragem se estourasse e levasse meus valores morais, éticos e a habilidade de raciocínio. Tudo ficava confuso.

Minha primeira memória é de estar saindo do prédio do meu namorado com a mochila do final de semana. Estou dentro do carro chorando e tomando todos os medicamentos do mês. Deixo claro que não me lembro de tomar essa decisão, nem da razão de estar chorando. Em seguida, aviso colegas que não irei trabalhar naquele dia e penso na enfermeira que me abraçou. Decido ir até o hospital em busca dela porque para mim, apenas ela conseguia me ver.

Minha próxima lembrança é virando na rua do hospital, descendo a rampa do estacionamento e subindo as escadas que me levariam ao pronto socorro. Não tenho qualquer lembrança de como dirigi até o hospital. Avisto um segurança e pergunto onde é o pronto socorro psiquiátrico. Vem um longo apagão.

Acordo amarrada em uma maca, gritando de dor com a introdução do tubo da lavagem nasogástrica e lembro de me injetarem algo que me sedou novamente. Depois desse episódio, a psiquiatra me encaminha a uma colega por não achar que possui capacidade para tratar do meu caso. A psicoterapia também é interrompida pela falta de habilidade do profissional em lidar com a tentativa de suicídio.

Relato de sobrevivente de suicídio

O desenlace

Após algum tempo, encontrei os profissionais certos para o meu caso. Após 2 anos de tratamento, nunca mais sofri de labilidade emocional, automutilação, pensamentos suicidas ou daquele nó na garganta que me sufocava. Hoje, 5 anos depois, acredito nos recursos emocionais que possuo para lidar com meu passado e minhas emoções.

Sou profissional da saúde, e marquei a vida de alguns pacientes que receberam um abraço apertado e acolhedor, assim como aquele que eu recebi, e foram gratos por isso. Lembra no início do texto que nem sempre a razão ameniza a dor?

Acredito que o que ameniza a dor é a experiência emocional, e foi esta experiência que aquele abraço me proporcionou e que fez eu buscar o hospital depois de uma atitude impulsiva que não me lembro de ter decidido tomar.

Aos que sofrem com dores intensas, fazendo com que a morte seja uma opção, gostaria de dizer: não desista, encontre uma maneira de pedir ajuda. Sempre existirão outras formas de acabar com a sua dor sem que você precise acabar com sua própria vida!

Relato real de Sarah (nome ficitício)

Fotos: por MundoPsicologos.com

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Maitê Hammoud
maitehammoud@hotmail.com